Título: Lugares Escuros
Título Original: Dark Places
Autora: Gillian Flynn
Ano: 2015
Editora: Intrínseca
Páginas: 352
Sinopse: Libby Day tinha apenas sete anos quando testemunhou o brutal assassinato
da mãe e das duas irmãs na fazenda da família. O acusado do crime foi
seu irmão mais velho, que acabou condenado à prisão perpétua.
Desde
aquele dia, Libby passou a viver sem rumo. Uma vida paralisada no tempo,
sem amigos, família ou trabalho. Mas, vinte e quatro anos depois,
quando é procurada por um grupo de pessoas convencidas da inocência de
seu irmão, Libby começa a se fazer as perguntas que até então nunca
ousara formular. Será que a voz que ouviu naquela noite era mesmo a do
irmão? Ben era considerado um desajustado na pequena cidade em que
viviam, mas ele seria mesmo capaz de matar? Existiria algum segredo por
trás daqueles assassinatos?
Gillian Flynn intercala a trajetória
detetivesca de Libby com flashbacks dos acontecimentos do dia dos crimes
com tanta habilidade que o leitor é levado a diferentes direções.
Escrito com primor, Lugares escuros não só mostra como a memória é
passível de falhas, mas também evidencia as mentiras que uma criança
pode contar a si mesma para superar um trauma.
OBS: A edição de Lugares Escuros que li foi a de Portugal (Quando li o livro ainda não tinham lançado ele aqui no Brasil...), mas resolvi colocar na resenha as informações e as quotes da edição brasileira. O motivo? Achei faria mais sentido postar as informações da edição que possui a maior acessibilidade para o público brasileiro (Diferente da do Brasil, a de Portugal é bem difícil de encontrar para comprar...), mas enfim, vamos ao que interessa:
"
Lugares Escuros" foi o segundo livro escrito pela autora
Gillian Flynn. A obra, que foi originalmente lançada nos Estados Unidos em 2009, chegou às livrarias do Brasil somente em 2015. Nesse meu terceiro contato com a autora, Flynn só me fez reafirmar o que eu já vinha dizendo: Que ela é uma das melhores autoras da atualidade.
Posso afirmar com total certeza que das três obras que a Gillian já escreveu (
Objetos Cortantes/Na Própria Carne,
Garota Exemplar e
Lugares Escuros), esta é a mais bem bolada, mais viciante, mais surpreendente e mais pesada. Querem provas? Vou dar a vocês:
Para vocês terem uma noção de como "Lugares Escuros" é suuuuuper pesado, saquem só a epígrafe que está lá na primeira página do livro:
"Os Day eram um clã que poderia viver à beça
Mas Ben Day perdeu a cabeça
O poder de Satanás o garoto queria
E matou a família em meio a uma gritaria
Da pequena Michelle torceu o pescocinho
Depois de Debby fez picadinho
A mãe, Patty, guardou para o final
E, sem piedade, em sua cabeça deu um tiro fatal
A bebê Libby conseguiu viva permanecer
Mas passar por aquilo de modo algum é viver
- CANTIGA DE RODA, CIRCA 1985"
Bem pesado e assustador, não é? E o livro é assim (quase) o tempo todo. Há uma cena em que animais são mortos para um ritual de satanismo (a cena mais pesada e desconcertante do livro, sem dúvidas), e há também as cenas dos assassinatos dos membros da família de
Libby, sendo um mais brutal que o outro:
Michelle foi estrangulada,
Debby esquartejada e
Patty teve (literalmente) os seus miolos estourados. E o pior (ou melhor, considerando a qualidade de escrita de Flynn) de tudo é que todas essas cenas são recheadas de detalhes. Então se preparem para ficarem desconcertados!
Como disse, o livro também é o mais viciante de todos já escritos pela autora. Gillian Flynn constrói o mistério de uma forma tão bem feita e tão instigante que o leitor só "sossega o facho" quando vira a última página da obra.
"Eu tenho uma maldade dentro de mim, tão
real quanto um órgão. Corte minha barriga e talvez ela escorra para
fora, viscosa e escura, e caia no chão para que você possa pisar nela. É
o sangue dos Day. Há algo de errado com ele."
O romance é muito bem bolado e bem escrito. A autora faz uso da tática (que também foi usada em Garota Exemplar) de intercalar os pontos de vistas dos personagens a cada capítulo, deixando a narrativa da trama mais ou menos assim: Em um capítulo temos a
Libby narrando (em primeira pessoa) os acontecimentos do presente, no outro é a
Patty (mãe da Libby) narrando (em terceira pessoa) os acontecimentos do dia 3 de Janeiro de 1985 (esse foi o dia em que aconteceu o crime da história). Daí volta para a Libby e o presente e vai novamente para o passado, só que com outro narrador (em terceira pessoa):
Ben Day (irmão de Libby e principal suspeito de ter cometido o crime). E por aí vai... O livro todo é construído dessa maneira, com as perspectivas e pontos de vistas desses três personagens. Isso, além de deixar a leitura do livro dinâmica, faz com que o leitor mude de opinião a cada capítulo.
Não poderia deixar de falar sobre os personagens do livro, não é? Falar de um livro de Gillian Flynn e não elogiar os seus personagens extremamente bem construídos é praticamente um crime! Então, vamos lá: A protagonista, Libby Day, é uma personagem (que assim como as outras protagonistas da autora) que foge do convencional. É ambígua e politicamente incorreta. Está a todo o momento nos contando o quanto ela é má, detestável e mentirosa, mas (acreditem em mim) é impossível não gostar da personagem e torcer a todo momento por ela.
"Eu não era uma criança
adorável e me tornei uma adulta extremamente detestável. Se alguém
fizesse um retrato da minha alma, veria um amontoado de rabiscos com
presas."
Patty Day foi outra personagem que me conquistou. Apesar de só ter conhecido ela a partir de flashbacks, foi impossível não admirá-la por sua coragem, garra, e amor incondicional pelos filhos. Mesmo tendo que lidar com muitos problemas (financeiros e pessoais), a personagem só pensa no bem-estar de seus filhos, fazendo de tudo para o bem deles. E foi por isso que gostei tanto dela.
Também no núcleo dos Day, temos
Diane (a irmã de Patty e tia de Libby e seus irmãos). A personagem, nos poucos momentos que aparece, rouba a cena por ser bem humorada e querer sempre ajudar a Patty e sua família.
E Ben, bem... Ben é um personagem complicado. Havia momentos em que eu me compadecia com o personagem, gostava dele e o entendia como ninguém. Mas havia momentos em que eu queria dar um soco na cara dele! rs
Por fim temos
Lyle, um dos membros do
Kill Club que contata Libby para convencê-la de que Ben é inocente. Lyle é o alívio cômico do livro e o responsável pelos melhores diálogos de "Lugares Escuros". Impossível não rir dele e com ele e não achar bonita a relação do personagem com a Libby. Lyle Wirth é sem dúvidas o meu personagem preferido do livro.
"Tirei um dos pés de sob o
lençol, mas não consegui alcançar o chão. Acho que estou deprimida. Acho
que tenho estado deprimida há uns vinte e quatro anos. Posso sentir uma
versão melhor de mim em algum lugar lá dentro — escondida atrás do
fígado ou presa a um pedaço de baço dentro do meu corpo mirrado,
infantil —, uma Libby que me diz para me levantar, fazer algo, crescer,
seguir em frente. Mas a maldade normalmente vence. Meu irmão massacrou
minha família quando eu tinha sete anos. Minha mãe, minhas duas irmãs,
mortas: bang bang, chop chop, gasp gasp. Realmente não tinha nada que eu
pudesse fazer depois daquilo, nada era esperado."
Há ainda um ou dois personagens que eu queria citar e falar sobre como eles são bem construídos e desenvolvidos psicologicamente, mas não poderia por motivos de spoilers. Mas vocês (quando lerem o livro) irão perceber que todos os personagens (até os de aparições pequenas), principalmente a protagonista, possuem um perfil psicológico muito bem traçado.
"Eu me fechei, ignorando minha
refeição, fazendo uma cara de mau humor. Esta era outra das expressões
da minha mãe: mau humor. Significava sentir tristeza de um jeito que
incomodava as outras pessoas. Sentir tristeza de forma explícita."
Sobre o final eu só tenho a dizer uma coisa: SURPREENDENTE. Essa é a palavra que descreveria muito bem os momentos finais de "Lugares Escuros". Eu fiquei literalmente de queixo caído com as revelações a respeito de quem é o autor do crime. Nunca iria acertar e acredito que ninguém que leu (ou vai ler o livro) também acertaria. Tudo é muito chocante, surpreendente e muito bem bolado. Palmas e mais palmas para Gillian por criar um final que mesmo sendo inimaginável é o ideal e que mais faz sentido para a trama.
Em suma, "Lugares Escuros" é um livro chocante, inteligente, surpreendente e muito bem escrito. Ideal para quem está procurando um romance policial de primeira linha com personagens extremamente bem construídos e reviravoltas deliciosas.
"(...) Nunca posso alimentar esses
pensamentos. Classifiquei essas lembranças como se fossem um lugar
particularmente perigoso: um lugar escuro. Bastava alimentar por tempo
demais uma imagem da minha mãe tentando dar um jeito na cafeteira
quebrada ou de Michelle dançando em sua camisola de jérsei, e minha
mente mergulhava em um lugar escuro. Manchas maníacas de um vermelho
brilhante soam na noite. Aquele inevitável machado ritmado se movendo
mecanicamente como se cortasse madeira. Disparos de espingarda em um
pequeno corredor. Os gritos apavorados da minha mãe, ainda tentando
salvar os filhos com metade da cabeça faltando."
Nota: 5 de 5 estrelas
PS: Lugares Escuros ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por
Gilles Parquet-Brenner e estrelada por
Charlize Theron,
Nicholas Hoult e
Chloë Grace Moretz. O filme chega aos cinemas de todo o Brasil hoje, dia 18.
PS 1: Posso até está enganado, mas notei alguns easters eggs (referências à outras obras da Gillian Flynn) em Lugares Escuros...
PS 2: ... o primeiro é sobre
Garota Exemplar: Durante alguns momentos de Lugares Escuros, falam sobre Lisette Stephens. Libby nos conta que esta mulher desapareceu repentinamente e causou comoção em toda Kansas City. As pessoas saíram para procurar ela e a TV a todo momento exibia a foto de Lisette sorridente. Todo esse plot me lembrou o desaparecimento de Amy em Garota Exemplar, que talqualmente como o de Lisette, causa bastante comoção e repercussão na TV.
PS 3: ... o segundo é sobre
Objetos Cortantes/Na Própria Carne: Em um determinado momento de Lugares Escuros falam sobre "umas crianças quaisquer assassinadas no sudeste do Missouri". O que isso me lembrou? Objetos Cortantes/Na Própria Carne, é claro! Nesse livro (que se passa em uma cidade fictícia do Missouri) duas crianças são assassinadas. Tudo isso pode ser só bobagem minha, mas achei interessante compartilhar aqui com vocês...