Título: Deixe a Neve Cair
Título Original: Let it Snow
Autores: Maureen Johnson, John Green e Lauren Myracle
Ano: 2013
Páginas: 336
Editora: Rocco
Sinopse: Na noite de natal, uma inesperada tempestade de neve transforma uma pequena cidade num inusitado refúgio romântico, do tipo que se vê apenas em filmes. Bem , mais ou menos. Porque ficar presa à noite dentro de um trem retido pela nevasca no meio do nada, apostar corrida com os amigos no frio congelante até a lanchonete mais próxima ou lidar sozinha com a tristeza da perda do namorado ideal não seriam momentos considerados românticos para quem espera encontrar o verdadeiro amor. Mas os autores bestsellers John Green , Maureen Johnson e Lauren Myracle revelam a surpreendente magia do Natal nestes três hilários e encantadores contos de amor , interligados, com direto a romances, aventuras e beijos de tirar o fôlego.

Li "Deixe a Neve Cair" no mês passado para comemorar o Natal. Acabou que a leitura não foi tão boa quanto achei que fosse, mas apesar dos pesares, encontrei alguns pontos positivos na obra.


Vamos saber o que eu achei de cada conto e o livro como um todo?

O Expresso Jubileu, de Maureen Johnson:

O conto que dá início ao livro foi escrito por Maureen Johnson, uma autora que adoro. Na história, conhecemos Jubileu, uma garota que vê sua vida mudar (em plena véspera de Natal) após seus pais serem presos por causa da Cidade do Papai Noel Flobie.

"Eu estava em um daqueles dias que você sente que a vida... gosta de você." - página 10

Gostei bastante do conto, da sua protagonista e dos personagens. O que me irritou foi o quão previsível a história é. Assim que li a breve descrição do conto na orelha do livro, sabia com quem a Jubileu ia ficar no final da história e isso foi meio broxante... Queria ser surpreendido e não foi o que aconteceu. Mas tirando isso e a insistência da personagem em criticar o seu próprio nome (cara, Jubileu é o nome de uma das minhas personagens favoritas da Marvel!), foi um conto bem agradável de ser lido.


O Milagre da Torcida de Natal, de John Green:

O conto de um dos meus autores preferidos é ótimo. O que peca mesmo é a sensação de "eu já li isso antes...", mas deixarei para falar sobre isso depois. "O Milagre da Torcida de Natal" conta a história dos amigos Tobin, JP e Duke, que largam a maratona de filmes do James Bond para irem à Waffle House verem as líderes de torcida que lá se encontram.

"É piadinha acreditar em sonhos? É piadinha superar a adversidade para tornar tais sonhos realidade?" - página 158

Como disse, o conto é ótimo. Mas o que me incomodou mesmo foi a sensação de déjà vu que senti ao ler a história. A impressão que fica é a de que John Green pegou todos os elementos que deram certo em suas outras histórias para colocar nessa. Querem provas? Lá vão elas: Neste conto temos o amigo do protagonista que é engraçado e tem alguma característica que será motivo de piada (artifício usado em "A Culpa é das Estrelas" [Isaac e sua cegueira], "Cidades de Papel" [Radar e sua cor de pele], "O Teorema Katherine" [Hassan e seu peso e também sua nacionalidade] e "Will & Will" [Tiny e seu peso]); Temos a garota descolada (às vezes ela também é amiga do protagonista) que em algum momento se tornará interesse amoroso do protagonista (artifício usado em "Cidades de Papel" [Margo], "O Teorema Katherine" [Lindsey] e "Will e Will" [Jane]); E claro, temos a famosa viagem de carro feita pelos protagonistas (artifício usado em "Cidades de Papel" e "O Teorema Katherine").

Tirando essa situação meio incômoda, o conto super me agradou. O ótimo humor de Green e seus personagens extremamente cativantes, como sempre, me encantaram.


O Santo Padroeiro dos Porcos, de Lauren Myracle:

Lauren Myracle foi a responsável por encerrar o livro com chave de ouro, mas o que conseguiu fazer mesmo foi um conto razoável com uma protagonista detestável. Em "O Santo Padroeiro dos Porcos" conhecemos Addie, uma garota que está na bad após ter terminado com seu namorado Jeb.


"Oi, disse a tristeza. Estou de voool-taaa. Sentiu saudades?" - página 259

Addie é insuportável. A típica garota que acha que o mundo inteiro gira apenas e exclusivamente em torno de si. E é por causa dela, que a minha experiência com o conto foi a pior possível. O que se salva na história é Gabriel (amo porcos! <3), as amigas legais da protagonista (Tegan e Dorrie) e as constantes aparições dos personagens dos outros contos. O final com todo mundo reunido foi lindo! :)


Em suma, "Deixe a Neve Cair" é um bom livro. Mesmo com todos os pontos negativos, o saldo final com a obra é mais positivo do que negativo. Essa é uma daquelas obras onde mesmo encontrando várias falhas, não conseguimos deixar de gostar dela.

Nota:





Título: A Legião Estrangeira
Autora: Clarice Lispector
Ano: 1999
Páginas: 110
Editora: Rocco
Sinopse: Os treze contos reunidos neste livro abordam o cotidiano familiar, a perversidade infantil e a solidão. As histórias colocam os leitores diante de situações cujo maior encanto é o de flagrar a intimidade dos personagens no momento em que eles descobrem o quanto há de extraordinário no dia-a-dia. É o que se pode observar, por exemplo, no encontro da menina e do cachorro em "Tentação"; ou no diálogo entre um casal de jovens em busca de si mesmos em "A Mensagem”. Outras histórias mostram como o próprio conto é construído, uma das obsessões da literatura clariceana.


"A Legião Estrangeira" é uma antologia de contos de Clarice Lispector. O livro marca o meu primeiro contato com a tão elogiada autora.


Resolvi falar um pouquinho sobre cada conto e depois dá as minhas considerações finais sobre a obra.

Os desastres de Sofia

O primeiro conto do livro é "Os desastres de Sofia", que narra a história de Sofia, uma garota que tem um estranho fascínio por seu professor.

Esse é um conto bem interessante. Gostei da forma como Clarice aborda a relação aluno-professor e a construção de Sofia é muito bem feita.

"(...) a prece profunda não é aquela que pede, a prece mais profunda é a que não pede mais"


A repartição dos pães

Esse conto aqui já é mais curto que o outro e não foca muito em seus personagens, mas sim em uma cena em especial. A cena do almoço onde surge o título do conto.

Me surpreendeu bastante a forma como Clarice escreve. Há muita poesia nos versos dela e a impressão que tenho é que tudo narrado por ela se torna mais interessante. A cena desse conto, por exemplo, é tão simples. Mas a autora dá um jeito de deixá-la mais interessante e bem bonita.

"Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos."

A mensagem

"A mensagem" é um dos meus contos preferidos do livro. A história de dois jovens que estão em busca de si mesmos me tocou de uma forma tão profunda, que ao chegar em seu final o que ficou em mim foi uma sensação de vazio.

Foi um conto bem tocante e que eu me identifique bastante.

"Que é, afinal, que eles queriam? Eles não sabiam, e usavam-se como quem se  agarra em rochas menores até poder sozinho galgar a maior, a difícil e a impossível; usavam-se para se exercitarem na iniciação; usavam-se impacientes, ensaiando um com o outro o modo de bater asas para que enfim — cada um sozinho e liberto — pudesse dar o grande voo solitário que também significaria o adeus um do outro."

Macacos

"Macacos" é extremamente curto, mas bonito. Nele, Clarice Lispector aborda o amor e a relação entre humanos e animais.

"Depois eu disse aos meninos: "Lisette está morrendo". Olhando-a, percebi então até que ponto de amor já tínhamos ido."  

O ovo e a galinha

"O ovo e a galinha" é um conto peculiar. De todas as histórias do livro, essa é a mais complexa. É necessário que o leitor tenha uma atenção maior na hora de ler o conto.

Mesmo tendo relido versos do conto diversas vezes, a impressão que tenho é que não consegui absorver nem metade das coisas que a autora quis me contar.

"De repente olho o ovo na cozinha e só vejo nele a comida. Não o reconheço, e meu coração bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele foi me adormecendo." 

Tentação

Mais um conto curto, lindo e que fala sobre a relação dos humanos com os animais. A autora, pelo visto, gostava muito de abordar essa relação em suas histórias. E querem saber? Eu acho isso ótimo!

Se já é bom encontrar autores que abordem a relação entre humanos e animais em seus livros, imagine encontrar uma autora que faz isso com uma delicadeza sem tamanho e com muita poesia?

"(...) Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás." 


Viagem a Petrópolis

"Viagem a Petrópolis" está duelando com "A mensagem" o posto de meu conto favorito. Igualmente como em "A mensagem", nesse conto (ao terminar de lê-lo) eu fiquei com aquela sensação de vazio.

O conto é pungente e trágico e tem um final surpreendente. Me sensibilizei demais com o drama de Mocinha e fiquei sem chão ao terminar de acompanhar sua jornada nesta história. 

"Uma pequena luz iluminou Mocinha: domingo? que fazia naquela casa em vésperas de domingo? Nunca saberia dizer. Mas bem que gostaria de tomar conta daquele menino. Sempre gostara de criança loura: todo menino louro se parecia com o Menino Jesus. O que fazia naquela casa? Mandavam-na à toa de um lado para outro, mas ela contaria tudo, iam ver. Sorriu encabulada: não contaria era nada, pois o que queria mesmo era café." 

A solução

"A solução" é um conto bem curto. Mas não se enganem: o que ele tem de curto, ele tem de chocante.

A amizade tóxica de Almira e Alice é retratada de uma forma afiada e com muita destreza e profundidade em apenas 3 páginas.

"Só a natureza de Almira era delicada. Com todo aquele corpanzil, podia perder uma noite de sono por ter dito uma palavra menos bem dita. E um pedaço de chocolate podia de repente ficar-lhe amargo na boca ao pensamento de que fora injusta. O que nunca lhe faltava era chocolate na bolsa, e sustos pelo que pudesse ter feito. Não por bondade. Eram talvez nervos frouxos num corpo frouxo." 

Evolução de uma miopia

"Evolução de uma miopia" é um dos contos mais lindos do livro. Nele, Lispector usa e abusa das metáforas e nos apresenta a evolução de um personagem extremamente cativante.

Acompanhar de perto a história do garoto (que não tem nome) e a descoberta que ele faz no final do conto foi bem emocionante.

"E foi como se a miopia passasse e ele visse claramente o mundo. O relance mais profundo e simples que teve da espécie de universo em que vivia e onde viveria. Não um relance de pensamento. Foi apenas como se ele tivesse tirado os óculos, e a miopia mesmo é que o fizesse enxergar. Talvez tenha sido a partir de então que pegou um hábito para o resto da vida: cada vez que a confusão aumentava e ele enxergava pouco, tirava os óculos sob o pretexto de limpá-los e, sem óculos, fitava o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego. "

A quinta história

Esse conto é genial, simples assim. Nele, uma mulher nos conta como uma só história pode se tornar várias outras.

"A quinta história" é despretensioso, divertido e fascinante.

"A quinta história chama-se "Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia". Começa assim: queixei-me de baratas."

Uma amizade sincera

Mais um conto de partir o coração. Em "Uma amizade sincera", Clarice Lispector nos conta a história de dois rapazes que queriam o tempo todo construirem uma amizade sincera. E é nessa constante busca por algo a mais, que a relação dos dois vai se transformando de uma forma irreversível.

Estou fascinado com o modo como a autora aborda linda e tristemente a fragilidade das relações humanas. É com contos como esse que fica comprovado o talento incontestável de Clarice.

"Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação."

Os obedientes

"Os obedientes" é um bom conto, mas que não me tocou tanto quanto os outros já citados anteriormente...

"Não era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara. Mas de irrealidade. Embora houvesse momentos em que de repente, por um motivo ou por outro, eles afundassem na realidade. E então lhes parecia ter tocado num fundo de onde ninguém pode passar." 

A Legião Estrangeira

"A Legião Estrangeira" encerra o livro de mesmo nome com chave de ouro. É um conto interessantíssimo que eu devorei rapidamente.

A história tem uma trama instigante, reflexiva e com excelentes personagens.

"(...) Ela se agarrava em si, não querendo. Mas eu esperava. Eu sabia que nós somos aquilo que tem de acontecer. Eu só podia servir-lhe a ela de silêncio. E, deslumbrada de desentendimento, ouvia bater dentro de mim um coração que não era o meu. Diante de meus olhos fascinados, ali diante de mim, como um ectoplasma, ela estava se transformando em criança."

Depois de tantos elogios, já deu para perceber que eu amei o livro e super o recomendo, né? Pois bem, se você gosta de histórias com uma pegada mais intimista e recheadas de personagens extremamente bem construídos, "A Legião Estrangeira" será uma excelente pedida.

Em poucas páginas, Clarice Lispector irá fazer com que você pense duas vezes antes de dizer coisas como: "livros clássicos são chatos" ou "a literatura brasileira é entediante".

Nota: 5 de 5 estrelas