Dezembro, 2018.

Era a última semana de aula. Provavelmente nossa última chance de nos encontrarmos antes de eu entrar de férias. Saí de casa nervoso, mas decidido: hoje vai ser o dia em que vou te pedir em namoro.

Eu queria fazer uma surpresa para ti e te dar algo especial, já que seu aniversário estava se aproximando. Mas o que dar a alguém que tem tudo (ou tem oportunidade de ter tudo que quer)? Pensei, pensei, até que tive a ideia de me dar a você. Me entregar. Inteiramente. Mais do que já havia feito.

Como não dá simplesmente para colocar um laço em minha cabeça e dizer: "olha só, aqui está seu presente", eu decidi te dar um exemplar do meu livro. Pedi um embrulho a minha mãe, que me olhou com reprovação. Como se não concordasse com a ideia. Mas ela deu. Embrulhei "O garoto que só queria ser amado" e te dei desejando que você entendesse a metáfora.

Aí resolvi que queria autografar o livro. Oh, por que inventei de fazer isso? É complicado escrever algo para alguém que você ama estando na frente dele. Mas eu escrevi. Deus, eu nem lembro o que escrevi. Tamanho meu nervosismo. E eu falei: "Ainda não acabou. Tem mais". Surpreendendo a mim mesmo com uma coragem que achei nunca possuir, te levei para O Nosso Lugar. Você se deitou e colocou a cabeça no meu colo. Estava com os olhos nos meus quando eu comecei a falar. Ah, como eu falei... Você ainda lembra das coisas que eu te falei?

Eu te disse que existia um eu antes de você e um eu depois de você. Sei que é clichê, mas meu santo Deus, você me fez mudar tanto. Antes eu só... Existia. Desacreditava de mim mesmo. Acreditava que não podia ser amado. Que estava sozinho. Que era feio. Que era quebrado demais para se envolver com alguém. E você foi me mostrando que eu estava errado em cada ponto. Dia a dia, encontro após encontro, conversa após conversa, juntando pedaço por pedaço, eu fui me descobrindo. Eu fui me aceitando. Eu fui me amando. Foi por te amar demais que eu passei a perceber que eu também sou alguém digno de ser amado. Sim, o garoto que só queria ser amado finalmente foi amado. E é tão bom sentir o amor. Eu sentir amor naquela noite. Você sentiu?

"Sabe o céu? Bom, ele é bem escuro, né? Mas tem as estrelas que iluminam ele. Você é as estrelas que brilham no meu céu escuro.", Eu disse isso e você riu. Lembro que você disse um "ai meu Deus". Você e seus "ai meu Deus". Sempre teve isso. Eu fazia algo, você ria e dizia "ai meu Deus". Quando eu perguntava "o quê?", todo assustado (sempre assustado), você respondia rindo: "seu jeito". Oh, meu jeito...

Com esse jeitinho de ser, todo atrapalhado, meio emocionado (é impressão minha ou você também estava?) eu coloco para fora as palavras engasgadas: "você quer namorar comigo?". Meu coração acelera. Tum tum tum tum. Num instante que pareceu uma eternidade (mas no fim das contas não deve ter passado de segundos) você diz sorrindo (sempre sorrindo): "quero". Como eu sou eu, não acredito. Tenho que perguntar de novo: "você quer mesmo?", e você responde mais uma vez, me passando segurança: "quero". Apenas uma palavra, mas que para mim significou muito. Meu coração e minha cabeça ficaram rodando. Mil e uma coisas e sentimentos passando num badalar frenético que me deixavam louco. Atordoado. Mas estupidamente feliz. Bom, eu estou namorando. E agora? O que acontece? Naquela hora eu não sabia. Hoje eu sei o que aconteceu.

Nem tudo é como a gente gostaria que fosse. A vida é imprevisível. Em um momento você está aqui, no outro não. Foram muitos os momentos que pensei que iria te perder, mas você ainda está aqui. E não importa se daqui a algumas semanas, meses, anos (seria meu sonho se durasse pra sempre?) você não esteja mais. O que importa é o que fica. As lembranças dos momentos. A lembrança daquele beijo de tirar o fôlego que demos naquela noite de dezembro. Dos seus olhos brilhando enquanto eu me declarava para você naquela noite de dezembro. Das nossas risadas e roupas todas molhadas naquela chuva que parecia não ter fim naquela noite de dezembro. Oh, aquela noite de dezembro foi a melhor coisa que já me aconteceu. E ninguém vai tirar isso de mim. Ninguém vai tirar isso de nós.


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