Rosa Clementino Fernandes Bento nasceu em um dia curioso: o dia da mentira. Foi em primeiro de abril de 1938, na Lagoa do Feijão (sítio localizado a 8 minutos de Tangará, no Rio Grande do Norte), que a mulher com nome de flor nasceu. Ariana, traz consigo poucas características do signo visto como o mais esquentado do zodíaco. Rosa emana benevolência e com sua voz mansa, conquista até aqueles com coração duro e cara amarrada. É mãe de doze filhos. Sua caçula é minha mãe.

Eu e minha mãe mantemos uma rotina de ir juntos à casa da minha vó todo dia, às 15h em ponto, mas nessa tarde de domingo foi um pouco diferente. Saí com o intuito de registrar um pouco de sua história para transforma-la em um perfil.

É minha mãe que dá a deixa para eu começar a falar. Ela conta que estou fazendo um trabalho para a faculdade e que queria lhe perguntar algumas coisas. Minha avó se senta em um puff e diz com um sorriso no rosto: "Se eu souber responder, respondo."

Começo com o básico. Perguntando sobre os seus primeiros anos de vida.

Filha de Mariana Clementino de Lima e Martins Bento Fernandes, Rosa trabalhou na agricultura desde cedo. Nunca estudou. Saiu de casa aos 15, com o até então namorado (que também era seu primo legítimo), José Gonzaga Bento. Os dois foram para Santa Cruz e lá se casaram. Um ano depois nasceu a primeira filha do casal.

A trajetória de Rosa e José é repleta de viagens. O casal passou anos e anos se mudando e morando em pequenos sítios no interior do Rio Grande do Norte. A tentativa era a de arrumar uma vida melhor. Foram tempos difíceis. Repletos de trabalho e muito suor. Ela conta que em uma de suas viagens de volta para Lagoa do Feijão (lugar onde ainda mora até hoje), o senhor que trouxe sua família ao olhar para a sua nova casa disse com reprovação: "Morar num lugar desses... Numa casa de taipa, com a porta feita de varas."

Ainda que lembre desse momento com tristeza e que tenha sofrido bastante por causa do trabalho constante, Rosa era feliz e preferia aquela realidade ao invés da atualidade caótica. "Antes era muito mais tranquilo, comparado as coisas de hoje em dia", conta.

"Eu vou já fazer a janta", ela dispara de repente. Percebendo o horário, decido avançar no tempo e fazer minhas últimas perguntas.

Rosa perdeu seu pai e sua mãe respectivamente em 1994 e 2001. Seu marido e grande amor a deixou em 2003. A causa de sua morte foi um infarto fulminante. A maioria de seus filhos vivem em suas próprias casas. Com ela, hoje em dia, moram apenas duas filhas e uma neta.

Os últimos anos têm sido difíceis. Após ter pego a doença Chikungunya, em 2016, a sua saúde ficou fragilizada. Além da hipertensão e da diabetes, Rosa precisa enfrentar as marcas da doença viral. Ela não consegue mais andar como antes. Não sai mais de casa. Com uma voz meio embargada ela conta a falta que sente de andar como outrora: "Eu sinto falta do meu leitinho que ia pegar, das minhas caminhadas... Minhas pernas doem, não posso sair mais".

Após alguns minutos calado, eu pergunto: "Mãe (forma como a chamo), como a senhora se vê daqui a cinco anos?" Ela para um pouco, pensa, manda eu repetir a pergunta e diz: "Viva. Eu penso em viver. Mesmo doente, eu penso em viver. Não penso em morrer não. Tenho fé em Deus que ainda vou viver por muitos anos. Mas é Ele quem sabe. Deus é quem sabe."

E chega a hora da foto.

Vejo minha avó ficar nervosa, mas mando ela ficar tranquila. Ela diz que não tem dentes e não pode sorrir, portanto fica séria. Mesmo com sua postura séria, ela consegue passar sua serenidade. Sua doçura. Eu elogio a foto e a mostro. Ela diz "até que fiquei aprumada" e começa a rir. Mesmo sem dentes, o sorriso dela é um dos mais bonitos e genuínos que já vi.


2 Comentários

  1. só lie verdades.parabéns dona rosa que jesus possa lhe abençoar sempre que ele derame bençãos na senhora e de muita saúde.felicidades para o dia de hoje e sempre bjs,e um forte abraço.

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  2. Parabéns dona rosa muita felicidade muito anos de vida é que Deus abençoe cada vez mais a senhora

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